Lições do mito de Apolo e como matar nosso “impostor interior”, por Claudio Naranjo

claudio-naranjo-cosasExiste um “mal interior” que habita nosso ser? Todos temos um desses? E com ele existe algum tipo de “tirano interior“? O psiquiatra chileno, mestre e fundador da Escola SAT Claudio Naranjo, indicado ao Prêmio Nobel da Paz 2015 e que esteve no Brasil neste mês de maio, diz que sim. E o compara a um impostor: alguém que se passa por nós, ou melhor dizendo, alguém com que nós nos identificamos, uma segunda natureza que acaba se tornando a primeira por nossa própria outorga. Nesse pequeno trecho abaixo do livro “Coisas Que Venho Dizendo” (2007), Claudio cita o mito de deus grego Apolo para ilustrar como podemos confrontar e “matar” esse monstro que é o impostor interior.

É importante lembrar que Claudio Naranjo tem uma visão e uma sabedoria que se situa no encontro de muitas diferentes escolas e abordagens de conhecimento, como o Budismo, a Psicoterapia, a Filosofia, a Psicologia dos Eneatipos da qual é um dos precursores, estudando assim o ego, os tipos de personalidade e as neuroses humanas (incluindo sua experiência como psiquiatra e referência viva em Gestalt Terapia), e é um criador de processos e programas de auto-conhecimento difundidos no mundo inteiro, como a Escola SAT. Esse “mal interior” a que Claudio se refere, assim, não aponta uma nomenclatura religiosa nem propõe uma visão sectária, é justamente o contrário: uma síntese, uma proposta de compreensão que inclui entendimentos aparentemente diferentes, e cujo cerne é que seja experimentada como caminho de auto-conhecimento.

Voltando ao trecho, um dos pontos mais interessantes é que Claudio aponta a consciência como curadora da identificação com essa entidade interior impostora, ou seja, o processo de tomar consciência é um processo de desidentificação. Ou de “desapaixonamento“, como ele diz ao citar Apolo como o deus do desapego supremo. Talvez o mal pior seja, de fato, a própria identificação, o apego.

Segue o trecho:

“No mito de Apolo que derrota o monstro, podemos dizer que se reflete a transição da época matriarcal ao patriarcado, mas também o episódio mítico constitui uma boa expressão simbólica de algo que acontece em nossas vidas, e é um aspecto de nosso desenvolvimento espiritual, assim como nosso “processo psicoterapêutico” em um amplo sentido dessa expressão, e mais: a terapia é, de um certo ponto de vista, uma arte de matar monstros.

 

Mas não é só um matador de monstros: é também um deus da medicina e da purificação, o deus do auto-conhecimento transformador e o deus desse desapego supremo — des-apaixonamento — e o deus da harmonia que tal purificação desapegada, através da visão clara, traz consigo.

 

Todos abrigamos um mal interior, em cujo fundo habita por sua vez um tirano interior, e nossa neurose não é apenas uma “segunda natureza” para nós, mas também algo como que acabamos nos identificando. Vive em nós um personagem que bem podemos considerar um impostor, porque chegamos a considerá-lo nosso “eu”. Tanto que nosso verdadeiro ser foi relegado a um calabouço escuro em nossa psique, onde está esquecido. Como Apolo mata esse impostor? De que é feita sua flecha?

 

De consciência: é a consciência mesma a que desarma. A luz, ao dar-nos consciência de certos processos, os faz afastarem-se ou os muda.”

 

Claudio Naranjo, em “Coisas Que Venho Dizendo”, pgs.96 e 97 (Kier, 2007)

//////////

More from Nando Pereira (Dharmalog.com)
Whatever you do, make it an offering to Me
“Whatever you do, make it an offering to me–the food you eat,...
Leia Mais
Join the Conversation

5 Comments

  1. Isso é cada vez mais verdade no mundo em que vivemos, de demasiada correria e processos rápidos. E cá entre nós, quem nunca falou ou fez algo diferente de sua natureza e questionou:

    “Eu nem parecia eu mesma(o) quando fiz aquilo.”

    Conheci seu blog a pouco tempo. Venho gostado. Excelente.

    1. Isabella, acho que é muito mais presente e evidente que isso até: não é uma vez nem duas, são várias, todos os dias. Esse impostor age no cotidiano. Porque continuamos acreditando nele.

      Obrigado pela visita, volte sempre — com sua flecha apolínea. :-)

      Abs.
      Nando

  2. says: Kátia Anair

    Prezados Senhores, primeiramente obrigada pelos textos disponibilizados por vocês, gratuitamente, que nos ensinam o caminho do coração. Gostaria de receber textos sobre “reparação”. Como reparar erros da criança ferida, como ter maturidade e pegar nossos deveres e cumpri-los com dignidade? obrigada.

Leave a comment
Leave a comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *