O primeiro passo no caminho espiritual (é o contrário do que se acredita), por Tulku Urgyen Rinpoche

“As pessoas comuns não questionam a versão comumente aceita da realidade. Elas se conformam com os valores padrão que orientam a derrotar inimigos e celebrar amigos e família. O materialismo, a ambição e as conquistas mundanas são as marcas do sucesso. Experimentamos o mundo fenomênico e nossas mentes como sólidos e realmente existentes. Muito poucas pessoas duvidam dessas afirmações e questionam suas validades. Ainda assim, o processo de desacreditar é o primeiro passo no caminho espiritual”.
— Tulku Urgyen Rinpoche

Quando chegamos a uma espécie de certeza interior de que “tem algo de errado aqui“, ou que “tem algo de errado nisso tudo“, chegamos a esse primeiro passo que o Tulku Urgyen Rinpoche (1920-1996) trata nesse parágrafo. O primeiro passo do caminho espiritual: desacreditar daquilo que está dado. Desacreditar no que todo mundo faz sem questionar. Desacreditar dos condicionamentos sociais, culturais, mentais, gerais. Isso pode acontecer de maneira abrupta, quando sofremos com alguma experiência como a perda de alguém, a doença ou uma mudança drástica (como relacionamento, emprego, etc), mas também pode acontecer de maneira silenciosa, muito íntima, no silêncio da nossa observação do mundo, das pessoas e da nossa rotina. Na observação da existência e de nossos modos com ela.

O que está acontecendo aqui? Será que essa maneira está me levando a algum lugar? Está levando alguém a algum lugar?

Por que todos estão fazendo isso e aquilo? Por que não nos interessamos mais por aquilo e aquilo outro?

Esses questionamentos são absolutamente vitais e “abrem a cabeça” do questionador para ir além das gaiolas do mundo social e culturalmente limitado que vivemos, “a versão comumente aceita da realidade”. O questionamento é o direito de desacreditar, a saúde de desacreditar, a necessidade de desacreditar.  Nos objetivos, na carreira, nas ambições, no colégio, nas disciplinas, no professor, nos amigos no bar, na família, nas crençcas dos pais e irmãos, na faculdade… e começamos a ter uma olhar diferente para as pessoas, a rotina, os arredores, a natureza, as regras, e, finalmente, para tudo que havíamos decidido fazer, para onde decidimos ir, para como decidimos viver. Esse estranhamento é uma fagulha de luz da contemplação autêntica de um indivíduo. Se houver curiosidade e força, ela se transforma em questionamento, em desacreditar. E aí começa o caminho espiritual.

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