Apesar do sofrimento no oceano do Samsara, poucos renunciam: uma vida que vale a pena, por Milarepa

O ensinamento sobre a verdade da existência está aqui, entre nós, porque não aprendemos?

A vida está acabando, porque não nos dedicamos?

Queremos a liberdade, a felicidade e a suprema compreensão, porque não conseguimos nos abster por um dia sequer de nossos desejos cotidianos?

“Embora sabendo que a vida sempre se tornará morte, poucos se sentem desconfortáveis, ou pensam que vai acabar”, diz o sábio yogue tibetano Jetsun Milarepa (1052-1135), constatando no Século XI o estado pouco inspirado dos indivíduos e sua parca atitude pela liberação. O gigantesco cânone budista está cada dia mais disponível, transmitido, traduzido e ensinado, os mestres estão desembarcando no Ocidente e instruindo quem quiser, e embora muitas vezes essa herança tome formas superficiais de conhecimento, como técnicas rasas ou frases de efeito, a profundidade está à disposição e chega por ensinamentos como os de Milarepa.

Como diz Thich Nhat Hanh, “a porta do Dharma já está aberta”.

“Se quiser aproveitar a vida, me siga”, convida Milarepa, no poema “Entrando no Portão do Dharma” (Entering The Dharma Gate*):

Apesar do sofrimento no oceano do Samsara
ser proclamado, e sua renúncia ressaltada,
Poucas pessoas estão realmente convencidas
E renunciam-no com determinação.
Embora sabendo que a vida sempre se tornará morte,
Poucos se sentem desconfortáveis, ou pensam que vai acabar.
Embora sua vida seja abençoada com boas perspectivas,
Poucos podem praticar a abstenção por um dia.
Embora a Felicidade da Libertação seja explicada
E as dores do Samsara detalhadas,
Poucos podem realmente entrar no Portão do Dharma.
Embora as profundas Instruções Essenciais
da transmissão oral sejam dados sem restrições, poucos
são capazes de praticá-las sem falhas.
Embora o ensinamento de Mahamudra seja exposto
e a demonstração orientadora seja exercida,
Poucos podem realmente entender a essência da mente.
À vida do eremita e ao desejo do Guru
Sempre se pode aspirar, mas poucos
podem colocá-los em prática.
O caminho perfeito e hábil de (do sábio) Naropa
Pode ser mostrado, sem segredo,
mas aqueles que podem realmente segui-lo
são muito poucos. Meu jovem querido
você deve seguir meus passos
Se nesta vida você quer fazer
Algo que valha a pena.

— Jetsun Milarepa

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(*) O poema é atribuído, pois foi encontrado em várias fontes budistas (exemplo), mas não há a indicação direta da fonte na obra de Milarepa.

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