Ao invés de amor, dinheiro, fé, fama, justiça… dê-me a verdade, “Na Natureza Selvagem”

“Rather than love, than money, than faith, than fame, than fairness… give me truth
~ Henry David Thoreau

Poster do filme “Na Natureza Selvagem” (Into The Wild)

Não há muito o que falar sobre “Into The Wild“, ou “Na Natureza Selvagem“, adaptação do livro de Jon Krakauer (1996) feita pelo diretor Sean Penn (2007), com Emile Hirsch como Christopher McCandless, o protagonista de uma história que desafia instintos, emoções e escolhas de vida. “Into the Wild” é um filme inspirado em fatos reais: aos 23 anos, McCandless deixou os planos de estudos acadêmicos pra trás e partiu em busca da própria identidade numa “grande aventura em direção ao Alaska“. Com uma das melhores trilhas sonoras que eu já ouvi num filme, composta especialmente por Eddie Vedder, essa jornada de um jovem corajoso, lúcido, ingênuo, inteligente e impetuoso pela liberdade e pela transformação espiritual pelo Oeste norte-americano virou um belo filme e agora pode servir para nos perguntarmos coisas tão essenciais de serem perguntadas, responder coisas tão essenciais de serem respondidas, sentir coisas tão fundamentais de serem sentidas, e viver. Ao invés de sentar confortavelmente sobre as conformidades da… “sociedade”, para usar uma expressão de McCandless, dessa invenção chamada carreira, de mentiras herdadas da própria família, da maldade diária da vida moderna.

Ron – Do que você está fugindo, Alex?
Alex – Sabe, eu poderia fazer essa mesma pergunta pra você, Ron. Mas eu já sei a resposta.
Ron – Sabe? E qual é?
Alex – Você tem que sair daquela sua casa, Ron. Sair, viajar, fechar sua oficina e viver. A espírito da vida humana vem de novas experiências, Ron. E tudo ao nosso redor pode nos dar isso.

A entrega total junto da incompletude de McCandless impressionam tanto quanto o foco libertário da viagem. Ron Franz, da cena descrita acima, recebe uma verdade, mas também transmite uma tão ou mais valiosa a McCandless, que vai se expressando, se renovando e descobrindo coisas ao longo do caminho. Alguns falam em “imaturidade”, mas acho que, nesse nível, a imaturidade é inerente à condição do ser humano – porque quando ele atinge a maturidade num âmbito tão amplo como esse, nenhuma jornada mais é necessária. A imaturidade é o que cria as jornadas, o que nos coloca no caminho da busca e da descoberta.

Há muitos atrativos culturalmente valiosos no filme, como a presença de grandes atores como Marcia Gay Harden, William Hurt e Vince Vaughan, ou o roteiro e direção de Sean Penn, ou a inspiração em autores como Tolstoy, Thoreau, London, ou ainda a comparação com as viagens de Che Guevara em Diários de Motocicleta, mas o principal é a jornada de um cara normal, sem especialidades ou fatos extraordinários, que saiu de Atlanta para o Alaska tentando se achar, e fez do caminho da natureza selvagem a peregrinação interior mais valiosa da sua vida.

Comes the morning
When I can feel
That there’s nothing left to be concealed

Moving on a scene surreal
No, my heart will never, will never be far from here
Sure as I am breathing
Sure as I’m sad
I’ll keep this wisdom in my flesh
I leave here believing more than I had
And there’s a reason I’ll be, a reason I’ll be back

As I walk the hemisphere
I got my wish to up and disappear
I’ve been wounded, I’ve been healed
Now for landing I’ve been, for landing I’ve been cleared

Sure as I am breathing
Sure as I’m sad
I’ll keep this wisdom in my flesh
I leave here believing more than I had
This love has got no ceiling

~ “No Ceiling“, Eddie Vedder (trilha de “Into the Wild”)

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3 Comments

  1. says: Dauro Veras

    Li o livro e gostei muito. Verei! Um livro que estou relendo, Dharma Bums (Vagabundos do Darma), de Kerouac, tem muitos pontos em comum com essa história. Fala da busca do autoconhecimento, escaladas em montanhas, festas zen, viagens.

  2. says: nando

    Tava pensando em incluir, no final do post, ou de qqer post sobre um filme que vi, para quem eu indicaria, e mesmo eu não fazendo isso aqui teu nome foi o primeiro que me apareceu. Não por acaso.

    Depois escreve o que achou, Dauro, deve ser diferente ver o filme já tendo lido o livro. Comprei Dharma Bums mas ainda não li. 8)

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